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As Histórias de Maria

 

Olá, 

A partir de hoje começo a publicar um grupo de quatro crônicas baseadas em fatos reais.  Eu dedico as “Histórias de Maria” a todas as Marias que mantem vivo o amor dentro de si, que lutam no dia a dia sabedoras de que cada momento é um momento, único, e que podem criar a sua história de vida. Pois triste é aquele que nada constrói e nada terá para contar.

 

 

Meu vestido preto

 

Ela tinha uns seis anos e, ainda hoje, aos 90, se lembra com alegria do presente que ganhara da família vizinha a sua, como recompensa por ser uma experta menina que afastava os perus das plantações de uva. Era, como poderíamos dizer, uma espécie de espantalho vivo, e muita vivo, porque os danados dos perus não tinham as mínimas chances com ela, e saíam em disparada sem uma uvinha sequer quando Maria estava nas redondezas. Todas as crianças maiores recebiam um pouco de dinheiro do "patrão”, mas Maria, a novata da turma, ganhou um presente. Claro que ela esperava também um dinheiro, como todos os outros, e assim poder chegar orgulhosa em casa e entregar a pequena quantia ao pai para ajudar nas despesas da casa.

 

A família de Maria morava nos campos italianos, no Norte da Itália, na pequena Parma, ainda bem pobre, e a história da Maria se passou em 1929. Segunda filha de quatro irmãos, os pais camponeses, agricultores como era normal nessa época, Maria cresceu nos campos, nas montanhas, nos lagos, entre árvores, plantas, pássaros, patos, galinhas, porcos, enfim, no meio da natureza. Parte da produção agrícola do sítio da família, era para ser comercializada e a outra para o sustento de sete pessoas. Como todas as crianças, Maria sonhava em ter a sua própria bicicleta e sair pelo “mundo afora" pedalando sem parar, até na pontinha do céu, lá onde mora Deus, com dizia a sua avó.  Maria gostava e se divertia, com o trabalho de espantar os perus do sítio vizinho, e quando voltava para casa levava um ramo de flores do campo ou uma fruta para a sua mãe, chegando sempre com a sua famosa frase: flores para a minha flor. Aliás, antes mesmo de abrir a boca para falar, todos da casa diziam a frase em uníssono antes dela, e o riso era geral, enquanto Maria fazia beicinho.

 

Até àquele dia, em que ganhou o presente, Maria chegaria com as mãos vazias, quer dizer, sem as flores ou frutos para a mamãe, e sem uma moeda sequer. O senhor Antônio, dono da vinícola, chegou um dia de surpresa para pessoalmente 'pagar' aos vigilantes das videiras.  Maria em êxtase aguardava a suas moedas, e foi a última da turma a receber a féria do dia. Enquanto a turma gritava de alegria com as suas moedas, Maria, séria, esperava a parte dela. O senhor Antônio, então, pegou pelas suas mãozinhas pequeninas e se agachou, lhe entregando um embrulho, um pacote, feito com papel ordinário mesmo. E ele disse: "peça à sua mãe para te costurar o mais lindo vestido que uma garotinha possa ter, e depois volte ao trabalho".

 

 Maria agarrou o seu pacote e saiu correndo seguida pelos irmãos. Nesse dia nada de flores ou frutos para a mãe. Era preciso chegar logo e, ao lado da mamãe abrir o embrulho e saber o que o senhor Antônio tinha colocado dentro. O caminho de volta para casa pareceu longo, e ela nunca tinha se dado conta de como era longa a distância entre a sua casa e o sítio do senhor Antônio e mesmo correndo que nem o gato de botas, ela chegava. No meio do caminho ainda teve de parar e espantar uns perus que rondavam o outro lado das videiras. Os perus se foram e logo Maria engatava uma primeira marcha e corria, corria, corria.

 

E Maria foi deixando para trás tudo o que sempre amava de ver: os rios, os pássaros cantando, os galos anunciando o final do dia, nada era mais importante naquele momento do que saber o que continha naquele pequeno embrulho. Os irmãos desesperados corriam juntos, gritando para ir mais devagar e nada. Maria atravessou a porteira do pequeno sítio da família, passando direto pelo pai, só dando um ‘alô papai’, e rumou direto para a casa entrando pela porta da cozinha onde, àquelas horas, era natural estar a ‘mama’ a preparar o jantar.

 

Maria entrou arfando porta adentro, para desespero da sua mãe, e gritando: mamãe veja o que o senhor Antônio me deu, venha, vamos abrir logo e ver o que temos dentro, corre mamãe você está muito lenta hoje". Puxando a mãe pelas mãos, Maria chega até à sala, se aconchega no chão, e espera a mãe se sentar para abrir pacote. Enquanto isso, o pai alertado pelos irmãos, também saiu correndo para ver a novidade, e que novidade era essa da Maria que estava deixando todos da casa em polvorosa. Chegaram na sala, ainda em tempo de ver a ‘mama’ abrir o pacote tão propalado, e ver o que tinha deixado Maria na mais absoluta convulsão emocional e de alegria.

 

Sentada no chão, os irmãos à sua volta, os pais sentados no pequeno sofá, Maria batia palminhas de agitação. A mamãe pedia calma a todos, depois de entender o que tinha de fato se passado lá nas videiras. Ela então abre o pequeno embrulho e de dentro sai um pequenino corte de tecido...preto! E a menina, lembra-se então do que lhe dissera o seu Antônio: peça à sua mãe para lhe costurar o mais lindo vestido que uma menina pode ter!

 

Alegre com o presente, Maria até esqueceu de que não tinha recebido nenhuma moedinha do seu Antônio. Isso já não tinha a menor importância, porque agora iria ter um vestido novo que a mamãe costuraria. Claro que todos da casa ficaram contentes, porque a alegria da menina era simplesmente contagiante. “Mamãe quando você vai me costurar o vestido? Vamos faça logo, um bem lindo”, dizia a menina. Tudo resolvido e logo Maria teria o seu vestido preto novo.

 

Os dias voltaram a transcorrer normalmente e, na volta da escola, após o almoço, os quatro irmãos partiam para o sitio do seu Antônio para espantar perus. Maria voltou para o seu cotidiano, não se esquecendo de levar as flores ou uma fruta para casa.

 

Alguns dias se passaram e ao chegar em casa depois de mais um dia de ‘trabalho’ de espantar os perus, Maria tem uma linda surpresa: o seu vestido preto estava pronto, pendurado num cabide e passado, engomado. Aos pulos de felicidade, ela corre para o quarto para experimentar a nova roupagem para o seu franzino corpinho.

 

Volta à sala para se apresentar à família: o vestido, o mais lindo que ela já tinha visto, tinha uma cintura baixa com ligeiro franzido, mangas compridas, gola com contornos arredondados e um lacinho delicado, e ia até à altura dos joelhos. Maria desfilava pela sala exibindo o seu vestido preto, e já pensando no próximo passeio de domingo quando então poderia usá-lo e mostrar às coleguinhas.

 

Apenas uma coisa intrigava a pequena Maria que, muito espera, pensava em porque todas as meninas tinham vestidos claros, com flores ou bolinhas, e ela tinha um preto. Ela já tinha percebido que preto era a cor dos vestidos das senhoras, principalmente quando os maridos tinham morrido. A sua mãe mesmo tinha uns vestidos pretos, de modelos diferentes, claro, mas eram pretos.

 

Aos 90 anos, Maria dá ótimas gargalhadas ao lembrar-se dessa história e nos conta o verdadeiro motivo do vestido preto: “na verdade os perus não gostam da cor preta, e se espantam quando veem qualquer coisa nesse tom. O seu Antônio, na verdade, me deu um vestido para ajudar a espantar perus. Agora sim, uma ‘espantalha’ vestida como tem que ser”.

 

E rimos muito com a esperteza do seu Antônio.

 

 09/2016

 

 

 

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