Procure pelas Tags

Please reload

  • Facebook Social Icon
  • Twitter Social Icon
  • Google+ Social Icon
  • YouTube Social  Icon
  • Pinterest Social Icon
  • Instagram Social Icon

As Histórias de Maria 2a parte

27.09.2016

A bicicleta de Maria

 

 

“Morar no campo, quando criança, é tudo de bom. É experimentar a liberdade, viver como as borboletas voando e pousando aqui ou ali. E os banhos nas lagoas ou rios da pequena cidade, é como se estivéssemos sozinhos no ventre de nossa mãe a boiar, mergulhar. Livres! Conviver com os animais faz com que nos tornemos pessoas melhores. Na verdade, os cachorros e gatos conseguem ser mais espertos e logo são os nossos companheiros de brincadeiras, de divertimentos, brincar de esconde-esconde...”. Recordações como essas, estão escritas no pequeno diário de Maria.  Uma forma de relembrar um pouco dos seus tempos de menina lá em Parma, cidade que deixou para traz há mais de 65 anos e nunca mais retornou porque, segundo diz, o que ficou para traz ficou, ‘temos que pensar no presente, e o amanhã a Deus pertence’, ensina filosoficamente.

 

Do tempo de Parma, onde viveu até aos 25 anos quando então se casou e mudou-se para a vizinha França, logo após o término da segunda guerra, ela tem apenas as recordações de sua vida alegre. A vida recheada de dificuldades e tristezas, principalmente por causa da guerra, são memórias à parte. Ela sabe que na vida não devemos viver de passado, mas aprender com o passado e, assim, procurar ter uma vida melhor, mesmo que tenha que enfrentar mais dores e sofrimentos. O importante é caminhar para a frente, porque a luz da vida é direta assim como os caminhos que, mesmo contornando curvas, a estrada vai nos levar a onde queremos chegar.

 

 Maria não nega que, apesar das boas lembranças, sempre produzidas tendo como personagens a sua família, o pai muito querido e amoroso, e a mãe atenciosa e conselheira, nunca gostou de viver no campo e desejava mesmo sair de lá. Lá onde morava, nas vilas, era tudo muito pobre, as famílias não tinham acesso ao que a cidade grande mais próxima, por exemplo, oferecia como uma padaria, um café, os bailes, as lojas de tecidos e roupas prontas, os médicos e um hospital. Trabalhar no campo era duro, sol, chuva, frio, neve, não importava, tinha que estar lá plantando, podando, regando, colhendo e vendendo. Enfim, ela queria escapar e viver a vida dos seus sonhos, longe de uma pá, uma enxada, sementes, do frio, mesmo sabendo que iria morrer de saudades dos pássaros, dos animais, dos rios, das árvores, das flores, enfim, da Mãe Natureza.

 

A família de Maria, de agricultores, vivia na simplicidade, e ela sem direito ou oportunidade de ter algumas coisas, vamos dizer, normais para a vida de uma criança. E como toda criança, ela sonhava e sonhava em ter a sua própria bicicleta, pedalar pelos campos, pelas estradas, ir para a escola. Como ela seria mais feliz se tivesse a sua própria bicicleta! Desde que descobriu que o mundo é redondo e gira, e que inventaram a roda também como meio de transporte, ela pensava que poderia ter a sua própria bicicleta. Entretanto, a engenhoca tinha custo, e o dinheiro necessário os pais não teriam. Além do mais, eles eram quatro filhos e se um tivesse uma bicicleta, os outros também teriam que ter. Assim, Maria conseguiu a proeza de aprender a dar as primeiras pedaladas na geringonça de um de seus colegas de escola, e assim mesmo depois de enfrentar a fila de espera: todos queriam pedalar, e a bicicleta era uma só. Todos os dias, vivia momentos de espera na fila, porém valeu à pena e logo a esperta Maria já sabia trafegar de bicicleta linda, leve e solta, distribuindo sorrisos a todos que passassem perto dela. Quanta alegria!

 

Na família de Maria não cabia sentimentos negativos, como o egoísmo, ela pensava. Portanto, como nenhum dos irmãos tinha uma bicicleta ela também não teria, até o dia em que ficasse grande e pudesse comprar a sua. Quando se sentiu segura nas suas pedaladas, andando com firmeza e altivez, ela decidiu contar aos pais a proeza. E muito orgulhosa relatou a façanha, recebendo aplausos e cumprimentos de todos em casa. O fato de não ter a sua bicicleta não a deixava mais triste, mas feliz por saber pedalar. O assunto foi esquecido nos meses seguintes, até o dia do seu aniversário de nove anos.

Com o pretexto de um passeio, com direito a um sorvete, como presente de aniversário, Maria seguiu para a cidade com o pai, naquela tarde em que a primavera começava a dar o ar de sua graça e as flores do campo já surgiam com muita timidez, e os pássaros aumentavam o tom dos seus cantos anunciando uma tarde agradável. A arte de falar é a sua maior singularidade, e Maria era conhecida como a tagarela da família. A boca fechava só no silêncio do trabalho de ‘espantalha’, para afugentar os perus da vinícola do seu Antonio. E o pai sabia que o caminho de ida e volta até à cidade seria, digamos, uma festa para os seus ouvidos com tantas histórias que a terceira filha iria contar. Ainda bem que ela sabia evitar as repetições, e dessa forma acabava conquistando o carinho e a atenção dos seus ouvintes com tantas novas estórias.

 

Surpresa! Quem não gosta de surpresas e, sobretudo, quando se é uma criança altamente curiosa e esperta. Na cidade, depois do sorvete degustado dentro da loja mesmo, Maria e o pai saem para um passeio: para encontrar os amigos, dizia o pai. Ao passarem em frente à loja de bicicletas, de vendas, compras e aluguel, a dupla faz uma pequena parada. O pai deixa Maria aguardando e sai. Volta empurrando uma pequena bicicleta, e já informando que era ‘para uma menina no dia de seu aniversário de nove anos’, disse ele que a tinha alugado pelo tempo de uma hora. Gritinhos tomaram conta da porta da loja, e logo vemos uma garota saltitando, pulando que nem pipoca de alegria.

 

Maria, a aniversariante, monta na bicicleta para logo sair feito louca pelas ruas da cidade, subir a colina e lá de cima, avistar os campos. Antes, porém, alguns avisos do pai: atenção redobrada para não cair, ficar nas proximidades e não se afastar tanto, respeitar as pessoas que andam pelas ruas e observar bem todos os lugares por onde passaria. E na volta reencontraria o pai no café, onde os amigos os esperavam para os assuntos da semana.

 

Maria sabia ‘pilotar’ bem uma bicicleta e partiu. Na hora combinada estava de volta. Bicicleta devolvida, era hora e voltar para casa. No caminho a ‘tagarela’ era estimulada a tudo contar ao pai: onde foi, o que viu, descrever minuciosamente tudo, tudo mesmo. Cores, tamanhos, formas, espaços, nada podia faltar nessa discrição. A mente de Maria, pensava o pai, era uma máquina fotográfica e nada perdia dos registros dos olhos. Maria era um orgulho para a família.

 

Anos depois, já adulta, Maria relembrava desses momentos e sorria. Ah, sorria, porque descobriu mais tarde que o pai era míope, não enxergava bem e se sentia constrangido em ter que usar óculos. E para fazer bonito com os amigos, durante os cafés semanais na cidade, ele adorava relatar os fatos que ‘teria vivido’, os lugares por onde passou, o que viu. Na verdade, tudo o que ele relatava era o que Maria lhe contava, as coisas vivenciadas por ela.

 

A filha era os seus olhos! E como tal, a menina aproveitou, e como aproveitou a sua infância!

E esse segredo da miopia paterna ficou guardado com Maria.

 

 

As histórias retratadas aqui são baseadas em fatos reais

 

Eu dedico as “Histórias de Maria” a todas as Marias que mantem vivo o amor dentro de si, que lutam no dia a dia sabedoras de que cada momento é um momento, único, e que podem criar a sua história de vida. Pois triste é aquele que nada constrói e nada terá para contar.

Please reload

Posts Recentes

05.03.2019

13.11.2018

Please reload

Procure pelas Tags
Please reload