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A boneca de Maria - 3a Parte

17.10.2016

 

Integrante de uma família pobre e de poucos recursos, Maria mantinha em segredo o desejo de um dia ter uma boneca, pequena, feita de panos coloridos e um chapéu de palha na cabeça que lembrasse o campo. Assim, parecida com ela. Ela sabia muito bem que os raros presentes de Natal e aniversário quem escolhia eram os pais, de acordo com as finanças da casa, mas quase sempre os presentes eram pessoais, para ela, roupas, casacos e uma vez um par de botas que ela usou até os pés quase saírem pelos calçados. Em épocas mais difíceis, quando o frio assolava a produção agrícola impedindo a família de vender o que plantou e durante a guerras, esses presentes inexistiam.

 

Entretanto, as dificuldades da família para realizar o sonho secreto da menina impediam que a mãe pensasse em comprar um brinquedo para qualquer um dos filhos, coisa de luxo para eles. Brincar tinha que ser no sitio, na escola e na saída da missa aos domingos quando a turma se encontrava na porta da igreja e brincava na praça, enquanto os pais trocavam alguma prosa. Os meninos, mais espertos, construíam os seus carrinhos ou um jogo qualquer de meninos. Boneca?! Hum, era mais difícil, pois se fosse ter uma, alguém teria que costurar, fabricar. Enfim...

 

Desejo reprimido é assim mesmo, martela na cabeça da gente até à morte. Ou quando, um dia realizado, vem à mente toda a história da vida passada em torno da bendita boneca.

 

Aos 92 anos, Maria decide recordar a história entre risos por causa do desfecho final, feliz, claro.

 

Um dia, quando namorava o marido, antes de se casarem, ela comentou com ele esse sonho não realizado. Sonhou em ter uma boneca de pano, mas agora que iam se casar, disse ela ao futuro marido, vou poder brincar com os filhos que iriam ter. E riam juntos desse comentário displicente.

 

O casamento, aconteceu na igreja, depois um almoço de família e logo o casal zarpou fora da pequena cidade italiana tão sofrida e castigada pela pobreza e pela guerra. O marido, artista, cantava e tocava acordeom como ninguém, e isso poderia garantir o início da vida dos dois no país vizinho que escolheram para se estabelecerem. Toda a Europa enfrentava a guerra, o frio, o desemprego, a fome, e a imigração entre as Nações era normal, gente e mais gente buscando melhor oportunidade de vida.

 

O casal, enamorados e sonhadores, pega o trem e o marido, além das malas, levava uma caixa de tamanho médio. Chamou a atenção da mulher o cuidado e esmero dele em preservar a caixa em boas condições. A recém-casada estava longe de imaginar o que continha na caixa, e como toda boa esposa da época nada perguntava sobre o seu conteúdo acreditando ser algo privado do marido.

 

Trocas de trem, longas esperas no cais de embarque, pequenos lanches para saciar a fome e a caixa ao lado do marido.

 

Depois de uns dois dias de viagem, Maria e o marido desembarcam na estação da cidade escolhida para viverem até que a morte os separassem. As malas eram poucas, normalmente nssas duras épocas.

Descem do trem, o marido deposita as duas malas no chão. Depois lança um olhar carinhoso, do mais profundo amor, e entrega à esposa a caixa, a valiosa caixa que ele tanto cuidou durante todo o trajeto da viagem. Maria se surpreende, pois nem imaginava que dentro dela teria algo para ela. O marido diz: o meu presente de casamento para a mais linda menina italiana que Deus colocou no meu caminho.

 

Sem ainda saber o seu conteúdo, Maria chora discretamente, agradece ao marido com um olhar terno e amoroso. Abre devagar a caixa, primeiro o laço e depois o papel de embrulho... por fim, bem devagar e com o coração acelerado de ansiedade, levanta a tampa e encontra... a sua boneca. Aquela de seus sonhos infantis que durante anos viveu em seus sonhos noturnos.

 

A boneca desses sonhos encantados e do amor do marido deixou de existir após 60 anos de casamento e convivência familiar, e que serviu para ela brincar junto com os filhos. Para compensar a perda com os danos do tempo, Maria ganhou dos filhos uma nova boneca parecida com a velha, mas com o mesmo significado do amor verdadeiro entre Maria e o marido, depois compartilhado com os filhos.

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