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A casinha de pombo - Final

24.10.2016

 

Maria e o marido chegaram à França ainda nos primeiros anos da Segunda Grande Guerra. Eram italianos e viveram em regiões diferentes na Itália, mas tomadas pela miséria, com dificuldades enormes e o país, aliado dos Nazistas, vivia ainda, grandes problemas por conta dos bloqueios comerciais impostos por outros países europeus. A França, não era aliada, mas foi tomada pelos alemães de Hitler e o clima pesado reinava por todo o país.

 

Mesmo assim, o casal resolveu se aventurar e desembarcar numa cidade fronteiriça à Alemanha onde a indústria têxtil e a agricultura de vinhas eram fortes. Sem falar o idioma local, o marido de Maria conseguiu um emprego de mecânico numa dessas empresas têxteis. Logo deixaram o pequeno quarto do hotel medíocre e alugaram um pequeno estúdio na cobertura de um prédio local, de apenas um cômodo com uma janela, tipo escotilha com um peitoral, e que recebia a visita de pombos todos os dias. O cômodo tinha uma pequena pia para as louças e cozinhar, e o banheiro/sanitário era no andar térreo, de uso coletivo. Para tomar banho o casal improvisou uma banheira dentro do estúdio.

 

Foi nessa “casinha de pombo”, apelido dado por Maria, por ser um cômodo pequeno e que tinha sempre na janela os pombos ansiosos por comida e grunhindo sem parar, que a italiana se descobriu gravida do primeiro filho. Ela não falava a língua francesa, coisa que demorou muitos anos para aprender, pois se ocupava da “casinha de pombo” e da cria que em breve chegaria. “Descer e subir cinco andares não era fácil, sobretudo carregando uma criança no ventre”, relembra ela das dificuldades iniciais.

 

Corajosa e determinada que era, os problemas eram superados um a cada vez que surgiam. O casal tomou a decisão de, assim que o bebe nascesse, ele iria passar uma temporada com a avó materna na Itália para que os pais pudessem conquistar uma vida melhor, ou seja, um apartamento mais descente. Maria avança pouco a pouco e aprendia a língua francesa. A criança veio ao mundo e meses depois partiu para a Itália onde ficaria mais segura, e por lá ficou até aos quatros anos de idade.

 

Agora mais esperta, e preparada para evitar uma nova gravidez, Maria avisou ao marido que iria procurar emprego. Assim trabalhou num açougue, cortando e destrinchando carnes, depois foi parar numa peixaria enfrentando a barra pesada do ambiente lúgubre, frio do gelo para a conservação do pescado e tendo que se levantar bem antes de o sol nascer para limpar e preparar a peixaria.

 

Com os recursos do seu salário, Maria juntou com o do marido, e alugaram um apartamento num lugar melhor, sem tantos andares, mas ainda pequeno: um quarto e sala com cozinha, e sanitário coletivo no corredor do prédio. O marido era um orgulho para ela que não negava esforço para garantir o pão de cada dia para eles, e pagar as contas. Eram dias difíceis com racionamento de tudo: alimentos, bebidas e energia. Até o vinho da região foi totalmente confiscado pelos alemães. O acordeom era tocado aos domingos num restaurante de uma cidade próxima da residência deles, e ainda resultava em alguns trocados a mais para a economia familiar.

 

Os anos foram passando, Hitler foi vencido e a vida da população tendia a ser melhor, a voltar aos bons tempos.

 

Maria já tinha trocado de emprego por esses anos, virou lavadeira e passadeira em uma lavanderia da cidade. E foi nesse emprego que descobriu a segunda gravidez e quando tomou para si toda a coragem do mundo e foi falar com o patrão do marido, proprietário da fábrica de tecidos, onde ele era técnico na oficina das maquinas. Naquela época, era normal as empresas construírem imóveis com apartamentos para os seus empregados. E foi assim que o casal se mudou para um apartamento, para ela, de luxo, pois tinha dois quartos, sala, cozinha e banheiro tudo no mesmo espaço.

 

Da Itália chegou a irmã mais nova de Maria trazendo o primogênito com quase quatro anos. O tempo passa e a vida mais estabilizada, com dois filhos e a França abrindo as portas para melhorar a vida dos seus habitantes. A irmã de Maria logo se encanta com um francês, se casa, tem filhos e vivem, ainda hoje, bem perto uma da outra.

 

Os filhos crescidos, formados em profissões de destaque, se casam e Maria passa a viver só com o marido. Até que um dia, após o almoço, durante uma ´siesta´, Maria descobre que ficara viúva. Um ataque cardíaco deixou o marido acordeonista dormindo para sempre.

 

Hoje, vinte anos depois da morte dele, Maria, ao relatar resumidamente a sua trajetória de vida, vive numa casa de aposentados. O peso da idade a impedia de subir e descer três andares do seu último lar. Decidida como sempre, recusou viver na casa dos filhos, optando pela sua independência. As aposentadorias do falecido e dela, conquistada depois de 40 anos de trabalho, lhe garantiam a tranquilidade de pagar o apartamento num prédio novo e moderno, equipado e preparado para pessoas idosas e com limitações.

 

Maria virou minha amiga, para todos os momentos, bons ou ruins. Algumas vezes ela chorou comigo, mesmo sem saber porque eu chorava. Riamos muito de suas histórias, pois ela as contava de forma divertida, nunca sofrida. Ela gostava de ler, e ainda aos 92 anos tinha à mesa sempre um novo romance, de preferência italiano, por serem mais adocicados e que iluminam os seus românticos pensamentos e lembranças de seu tempo de jovem quando paquerava o tocador de acordeom que surgiu do nada em sua cidade.

 

Ela nunca teve a pretensão de ser exemplo de coisa alguma, por causa da sua histórica luta pela sobrevivência num país estranho em uma guerra que não era dela. Ser espantadora de corvos na infância, açougueira, peixeira, lavadeira e passadeira, para ela eram profissões nobres que exerceu com dignidade no país que a acolheu.

 

A cada nosso encontro, ela dizia a mesma frase: ‘bom, vamos ver se no ano que vem estarei aqui para te receber’. E a cada viagem que faço à França tenho a esperança de reencontrá-la para que possa me contar mais histórias e darmos boas gargalhadas; e depois do almoço fazermos a ´siesta´ juntas, cada uma em um sofá da sala.

 

PS: em maio desse ano de 2016, tentei rever a amiga, mas recebi a notícia do seu falecimento. Maria, minha querida amiga confidente, virou uma estrelinha e repousa o seu espírito na calma do Divino.

 

 

 

@direitos reservados. Textos podem ser reproduzidos desde que citada a fonte.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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