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Jairo e a ‘Clarissa’

06.02.2017

 

A cada 15 dias, Jairo cumpre um ritual que já dura dez anos.

 

Ele se recorda muito bem de como tudo aconteceu e se lembra de como a sua cabeça estava perturbada nesse dia, se agitando numa turbulência sem fim. Os pensamentos, aliás, os maus pensamentos entravam e se instalavam fazendo com que o seu cérebro se dilatasse, e o fazia se sentir nessa turbulência aérea insuportável. Que vontade ele tinha de amarrar uma pedra no pé direito e entrar na lagoa que ficava a poucos quilômetros dali!

 

Nesse dia, de um domingo qualquer, o filme passa em sua cabeça, ele gesticulava muito, tocando fortemente a cabeça com as mãos para fazer sair esses pensamentos desagradáveis, que cutucavam a sua massa cinzenta. Cabelos? Ah, já eram poucos e ralos, pois a agonia os lançou por terra e pelo ralo da pia do banheiro. Parecia um doente mental aos olhos dos transeuntes. Mas ele sabia que precisava retirar esses bichinhos de orelha de dentro da cabeça, ou ficaria doido mesmo.

 

Nesse dia de agonia profunda, passava ele pela Gávea, sem saber se iria adiante com o seu plano da pedra no pé direito e se lançar na lagoa, quando se deparou com um Convento, esse que abriga as ‘Clarissa’ reclusas, local que ele desconhecia a existência. Ele nem mesmo sabia o que vinha a ser ‘Clarissa’, devotas de Santa Clara que, como as Carmelitas, se colocam reclusas em conventos.

 

Sem saber porque, Jairo entrou na pequena Capela do Convento, nessa manhã fresca de domingo, onde acontecia uma celebração eucarística. Entrou e se sentou. Jairo não era católico, ao contrário de sua mãe, uma ferrenha devota de São Judas Tadeu e fiel colaboradora da Igreja do bairro onde vivia, e amiga do pároco.

 

Jairo, último dos cinco filhos, tinha 66 anos, solteiro e vivia com a mãe, uma velha déspota viúva. Todos os quatros irmãos mais velhos se foram ao se casarem, depois que o pai dessa prole morreu. Sobrou Jairo, o caçula, para cuidar da mãe que já contava com os primeiros sintomas da esclerose, ampliando a sua conhecida rabugice. Jairo sempre foi um menino obediente e, por determinação da mama, nunca teve uma namorada sequer, pois o seu destino era cuidar dessa mulher que ao trouxe ao mundo.

O seu emprego de funcionário público municipal lhe permitia, no ir vir do trabalho, contemplar o sexo oposto sem que isso representasse riscos de desejos, instintos masculinos. Afinal, a mulher que lhe caberia nessa vida é essa mesmo que o pariu!

 

Essa mãe, viúva, sempre a mão de ferro da casa, era o tipo ditadora. O marido agradeceu a Deus quando foi chamado de volta ao lar, depois de um ataque do coração fulminante quando retornava do trabalho na estação Central do Brasil. O pai de Jairo foi sepultado sob uma enxurrada de insultos por parte da viúva, que não aceitava ficar sozinha para criar cinco filhos homens. “Um inferno”, dizia a viúva acrescentando mais alguns impropérios que não ouso aqui reproduzir em respeito ao falecido.

Depois da morte do patriarca, os filhos foram um a um caindo fora de casa, usando como arma o matrimônio e se casavam sem mesmo escolher a donzela. E a viúva, assistindo a debandada, decretou que Jairo não, esse ficaria e que não arrumasse mulheres. “Sim mamãe”, frase que Jairo mais disse em toda a sua inútil vida de periferia.

 

Naquele dia, quando a cabeça estava bem pertubada, Jairo, sentado num banco de madeira da Capela das Clarissas, perguntou a si mesmo se deveria prosseguir com o projeto da pedra no pé direito a ser lançada na lagoa Rodrigo de Freitas. Nesse momento, uma voz o acorda e o convida a conhecer as ‘clarissas’ por trás das grades. Ele foi. Do outro lado das grades de ferro, senhoras jovens e outras maduras, sorriam e cumprimentavam a todos os poucos visitantes e agradeciam os presentes que recebiam, quase sempre biscoitos.

Foi nesse momento que Jairo se aproximou curioso e foi recebido por uma delas, que lhe dirigiu algumas palavras. “A vida não é uma prisão. Saiba viver e apreciar a natureza, a beleza do céu, escute o som dos pássaros, o sorriso das crianças. Seja feliz do seu jeito, pois a felicidade está dentro de ti”, disse a Clarissa’ enclausurada.

 

E desde então essa frase da amiga salvadora, um anjo de Deus, martela na cabeça de Jairo. E isso já faz uns bons 10 anos. “A felicidade está dentro de mim”, repica o amigo que nunca mais pensou em pedra no pé direito.

A cada 15 dias, Jairo mantem o hábito de visitar a amiga enclausurada e voltar para casa com dois pedaços de velas que ganha na Capela, e que as mantem acesas até a próxima visita. Continua não católico.

Um dia ele perguntou a sua mãe: “O que a senhora faria se papai visitasse uma Clarissa a cada 15 dias?”.

- Eu acabava com ele, o mandava embora. Respondeu a matriarca.

Jairo me contou essa história com um lindo sorriso nos lábios, pois afinal ele só é o filho da mãe. Assim, as visitas a ‘clarissa’ continuarão até o fim da vida.

 

Carminha Correa Jecko

Rio – 05/02/17

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