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A mulheres dos quartéis

12.02.2017

Os olhos vermelhos, em lágrimas, mostram a fadiga, o estresse, a tensão. As duas policiais militares deixam o batalhão, retiram os coletes, entram num carro e seguem para o Hospital da Polícia Militar, pois não suportam mais o nível de pressão da situação em que os militares capixabas se encontram desde o último dia quatro de fevereiro. Assim como elas, outros tantos militares vivem o mesmo drama e as fichas de atendimento no HPMES se avolumam. Dentro do comando Geral as cenas são de desolação (foto cedida pelo movimento). A crise nervosa assola os batalhões e quartéis.

 

 

 

As lágrimas são compartilhadas pelas esposas, namoradas e familiares dos PMs aquartelados, porque a tensão não para num só instante. “Nós choramos juntos, rezamos juntos, porque sofremos os mesmos dramas em casa e hoje aqui fora”, diz uma das senhoras na manhã desse domingo, 12 de fevereiro em um dos batalhões que visitei. Sou jornalista há 39 anos, aposentada, não resisti e fui conhecer um pouco dessas senhoras que enfrentam uma barra pesada de críticas, ofensas e estão sendo julgadas por quem não cabe julgar. Afinal, elas valorizam os seus homens, respeitam as suas fardas, tem orgulho, mas reconhecem que eles não são valorizados: “Até o coturno que o meu marido usa, que custa R$ 700,00 nós temos que pagar”, acrescenta uma outra mulher. Lamentam o mal vivido pelas cidades, mas dizem que o povo precisava saber das condições de trabalho deles.

 

Kátia, uma das integrantes do comitê de negociação, professora há 23 anos, o marido é sargento, tem um filho, conta o clima de tristeza que reina entre as organizadoras do movimento e os miliares. “Estamos sendo julgadas, como se todos tivessem direitos e eles não. Eles não podem fazer greve, nós sabemos, mas eles estão cumprindo as suas atividades nos DPMs e nas seções administrativas. Só as viaturas não saem”, explica. Dizem elas, que até militares foram surpreendidos pela decisão delas.

 

O começo

 

O movimento, segundo me explicaram, começou isolado no bairro Feu Rosa, na 3ª Cia da PMES, na Serra quando um grupo de mulheres bloqueou a passagem e anunciando via Zap para outras companheiras da região metropolitana a insatisfação e a decisão de bloquear tudo. Como num rastilho de pólvora logo as senhoras se organizaram e foram bloqueando. “ O meu marido, quando me viu saindo para as ruas, disse que eu estava louca, que eu não fizesse. Mas bati pé e estou aqui e ele está no quartel com a farda dele”, conta outra esposa.

 

O fato é que, conforme explica uma das integrantes do comitê de negociação, é que “fomos para as ruas e, diante de ameaças que estávamos recebendo de pessoas de vários níveis, os militares que estão de folga, passaram a nos guardar, dar proteção”. Como já foi amplamente noticiado, elas garantem que o movimento é delas, e que o policial nada tem com isso.

“São sete anos sem reajuste, e uma inflação de 40%. Pedimos 47% de recomposição e nenhuma punição. Pedimos ticket alimentação também, mas estamos abertas a negociar. Tem impasse sim, sobretudo porque não nos veem como lideranças do movimento, e querem reduzir o nosso papel nesse movimento”, explica uma das mulheres do grupo de encaminhamentos, que reclama terem as suas falas distorcidas em entrevistas.

 

 

Nas tendas armadas tem colchões, alimentos, bebidas, água, tudo doado por pessoas que chegam a toda hora nas entradas dos batalhões. “Acho que o apoio é de 50% da população, e queremos que nos compreendam. Outro dia, um gari passou aqui e nos deixam um litro de refrigerante. Os nossos maridos e filhos militares saem para trabalhar e não sabemos se voltarão vivos. As armas que possuem não se comparam com as dos bandidos. Os coletes são revezados, quando um sai deixa para quem fica”, nos conta Kátia.

Elas querem ser vistas e recebidas como as lideranças desse movimento. Olhando para o quartel general, a senhora diz: “A Polícia Militar tem 167 anos e nunca isso aconteceu na sua história. As famílias lutarem pelos seus. Vamos resistir até sermos ouvidas, e poderemos dar uma resposta para a sociedade”, diz. Outra lembra que são os PMs que entram nos bairros onde a criminalidade corre solta, e só eles para ter coragem de enfrentar o mundo do crime sempre mais estruturado.

 

 

Elas são muitas e de idades que variam dos 20 e poucos até os 70 e tantos anos. Não há como negar a coragem e a determinação para enfrentar, agora, todo um país, contra as suas atitudes. Críticas acontecem de todos os lados, contra elas e contra os militares. A situação é estranha, como nunca na história da PMES, como disse uma delas. Policiais juraram não fazer greve, respeitar a farda e proteger a sociedade. As mulheres nada juraram, e se sentem livres para mostrar a situação dos seus heróis de casa e do Estado. Os militares cumprem os seus horários nas suas corporações, ondem deixam as fardas, quando finaliza o tempo de trabalho, e, claro, se sentem fortalecidos por elas que peitam a tudo e a todos, explicam.

“Somos intimidas por helicópteros, carros tanques, outras policias, mas nada vai tirar a nossa força. A cada duas horas nos reunimos para rezar e pedir a Deus que ilumine o Governo e a nós para chegarmos um final. Pedimos pelos nossos homens que estão à beira de um colapso. Sabemos que nessa luta não haverá vencidos e nem vencedores, mas que nos respeitem como as organizadoras desse movimento”, falam as senhoras. Elas denunciam que militares que não tem hábito de policiamento externo, e até músicos da banda, estão sendo obrigados a irem para as ruas fazer BO, colocando em risco as suas vidas.

 

 

É verdade, essas senhoras tem determinação porque sabem que podem perder os seus homens e mulheres de suas famílias, diante da situação em que trabalham os homens da PMES. Denunciam que os seus policiais estão surtando sob ameaças morais e até físicas. A tropa das famílias dos militares são comemoram nada, não riem da situação, esperam compreensão da sociedade, e sabem que os custos dessa ‘operação’ poderão pesar em muitas famílias. “Mas pelo coletivo vale à pena lutar, e mostrar ao capixaba que a valorosa polícia do Estado passa muitas necessidades, e riscos. Que Deus nos ajude!” E encerram a nossa conversa.

 

 

Minimizar a importância dessas mulheres no movimento, seria o mesmo que ignorar o movimento das mães da `Praça de Mayo' de Buenos Aires. 

 Que a Luz ilumine a todos os envolvidos num diálogo franco. 

( por questões óbvias omiti os nomes de minhas entrevistadas)

 

Carminha Corrêa Jecko

Jornalista

 

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