Procure pelas Tags

Please reload

  • Facebook Social Icon
  • Twitter Social Icon
  • Google+ Social Icon
  • YouTube Social  Icon
  • Pinterest Social Icon
  • Instagram Social Icon

Livres para voar

          

 

 

         Quinze anos após deixar a sua casa, a sua cidade, Anna volta àquele local onde um dia viveu dias felizes e dias infelizes. Sentada no jardim, ainda florido, de azaléias, margaridas, rosas vermelhas e brancas, a flor de laranjeira, as flores e frutos do maracujá, que tanta calma lhe proporcionaram em vários momentos difíceis de indecisão. Tudo parece como antes, menos a casa, mal conservada, meio assombrada, sem a velha cadeira de balanço onde por muitas vezes embalou a pequena Luiza, a filha querida, desejada e esperada com muito carinho e que um dia ficou só. Anna ainda lembra dos pequenos olhos negros de Luiza que estava sentada nessa mesma cadeira de balanço e  que nada entendia quando a mãe deixou a casa, abriu e trancou o portão, e se foi.  A pequena se comportou como uma dama, e deixou no ar um leve sorriso, enigmático.

            

          Sentada no degrau da escada que leva à que foi uma charmosa varanda, Anna fecha os olhos e entra no túnel do tempo, e lembrar da sua vida de senhora casada e dedicada mulher ao seu companheiro, estranho companheiro.

             - Charles, assim vou vai me deixar cair. O véu está embaixo do seu sapato, vamos parar no chão! – Gritava sorridente a jovem Anna, ao recém marido, logo após à rápida cerimônia de casamento, onde apenas alguns poucos familiares assistiram e nenhum amigo participou. “Que importavam as presenças de muitas pessoas, bastava mesmo nós dois”, pensava Anna, ao entrar na igreja levada pelo velho pai, que veio a morrer poucos meses depois do casamento. A mãe, já tinha partido para o outro mundo quando Anna nasceu.

             

           Sem sair do túnel do tempo, Anna relembra do esposo a quem dedicou muitos momentos de sua vida conjugal. Ainda na lua de mel, Charles, um ainda não famoso escritor, trancou-se em seu escritório, precisava continuar uma pesquisa para a sua nova obra. Lá dentro ficou por três longos dias, só saindo para as rápidas refeições e, concentrado, nenhuma palavra emitia. Anna, admirando o seu querido e adorado marido, respeitava os seus momentos de reclusão física e intelectual.

             

           Ainda dentro do túnel do tempo, Anna ainda pára e volta os pensamentos para a pequena escola primária, onde era uma dedicada professora. Na sala, vinte crianças entre sete e oito anos, alegravam os seus dias, risos soltos dos pequeninos e, quando a hora era de música, as vozinhas se misturavam e formam um belo coral. Anna sorri, e logo fica triste. Tristeza por ter deixado aquela turma alegre e saltitante. Ela havia deixado a vida de mestre para se dedicar à de casa. “Quantas loucuras fazemos quando jovens e apaixonados, quando a realidade é outra”, pensava.

            

                As imagens do passado se misturam com as estações do ano que iam passando em sua mente: o colorido da primavera, o escaldante verão, as folhas do outono, o frio do inverno, até que Anna descobriu nos livros a companhia mais agradável para passar os seus dias de solidão e tentar compreender melhor a solidão do marido. Em cada palavra escrita, em cada emoção vivida, estavam os seus sonhos transcritos somente para ela. Na imaginação desenhava a sua nova vida, uma vida de liberdade, de amor, de desejos saciados, amor sufocado, da presença indiferente do marido escolhido, sem ter conhecido. Nas páginas dos livros, Anna aprendeu a conhecer a vida, novas esperanças, outras experiências, e sonhou, sonhou em voar, não cortar as asas e planar firme e forte, corajosa e determinada.

               

               No dia em que Luiza chegou ao mundo, os seus dias mudaram e o seu tempo passou a ser dividido entre a filha e os livros, mas nada poderia separá-las. Luiza e os livros eram o ar que precisava para continuar a respirar a vida. No escritório, Charles desconhecia o mundo externo em que Anna vivia, com os seus pensamentos de ave formosa, penas brancas, alvas, que viajava pelo mundo afora conhecendo a vida, os seres, as árvores, as flores, os mares, os rios, vivendo a sua intrínseca liberdade. Vivendo os seus sonhos.

               

                 A pequena Luiza foi crescendo ouvindo na voz da mãe as palavras escritas, onde a mais forte delas, liberdade, era entoada com força e determinação. Luiza não entendia o significado daquela palavra, liberdade, mas sorria a cada vez que a mãe a pronunciava. Anna fazia a sua leitura daquele sorriso, já antecipando um perdão da filha quando, finalmente, voaria mais alto para a sua liberdade e ela ficaria.

                 

                As angústias eram sufocadas pelos livros e pelos sorrisos da pequena Luiza. As estações passando, luas e mais luas chegam e se vão, e voltam, enquanto o pássaro chamado Anna vivia engaiolado. Sonhava com a abertura dessa gaiola, queria voar com as asas bem abertas, cantando cada uma das milhões de palavras que descobrira nos seus livros, num soneto que não teria mais fim. Anna fazia na mente o roteiro dos caminhos que o seu pásssaro ferido faria quando isso acontecesse. Luiza saberia entender. Um dia também iria viver essa imensidão azul da vida e, desejaria como a mãe, a sonhada vida livre.

                   Charles não sentiria a sua falta, pois raramente vivia a sua presença. Do seu túnel do tempo, Anna pensava no quanto desejou o sucesso do seu marido escritor, sobretudo agora que compreendia a importâncias das palavras para a alma. Charles nunca via a sua angústia, não percebia a sua falta de ar, a tristeza em seus olhos e no caminhar.

                 

                    Anna dormiu, cerrou os olhos e viu na sua imaginação a porta de sua vida aberta, livre para voar. Numa manhã ensolarada, vestiu-se de branco, e de branco também vestiu a pequena Luiza. As duas fizeram uma agradável refeição, riram, brincaram de voar. Anna cantou músicas desconexas, de palavras desencontradas, criou as suas próprias músicas tirando dos seus livros as palavras emocionadas de uma vida.

               

                    Sentadas na velha cadeira, Anna contou histórias de duendes, florestas, flores e rios encantados; histórias de bichos alegres e voadores, de bichos ferozes, famintos e lutadores, “como a sua mãe, como voce será um dia”, pensava Anna.

              

                      Voando no seu túnel do tempo, Anna recorda-se da filha comportada como uma dama, sentada na velha cadeira de balanço, enquanto via a mãe se afastar da casa, lentamente, toda de branco, sorridente, séria e decidida. De longe os beijos lançados para a pequena se misturavam às lágrimas de tristeza, da dor da separação, mas tão necessária para as vidas de ambas. Luiza, sentada, esperou, em vão pela volta da sua querida e adorada mãe.

             

                    Cerrando a porta do seu túnel do tempo, Anna lembra de olhos abertos os caminhos percorridos nesses 15 anos que se passaram. Viveu, cresceu, amadureceu, aprendeu, lutou, chorou... Charles continuou no seu escritório, enquanto a pequena Luiza foi criada nos campos por pessoas desconhecidas durante os quatro anos de guerra. Para a segurança da menina, os avós paternos decidiram enviá-la para as montanhas. Lá Luiza viveu por quatro longos e intermináveis anos longe do pai, sem saber da mãe, e ignorada pelos avós.

              

                    Na sua nova vida, Luiza não entendia a guerra, mas sentia os seus horrores, a falta da família, a comida escassa, os afazeres domésticos exigidos para uma criança tão pequena. Percebia nas pessoas com quem vivia a tristeza nos olhares, a agressividade das atitudes, a falta de afeto e carinho. Assim como a guerra, Luiza desconhecia aquelas pessoas. Nas suas inúmeras noites de vida de camponesa, a menina ainda lembrava das histórias dos duendes, das florestas, dos rios, dos fantasmas, tantas outras que a mãe não cansava de lhe contar. A menina procurava imaginar as suas histórias na voz da mãe que ela acabou por esquecer, depois de anos de ausência.

            

               Os anos se passaram e, foi a vez de Luiza viver os dias de uma jovem adulta. O pai permanecia mais calado do que nunca e trancado em seu escritório, mas já reconhecido como um conceituado escritor. A fuga de Anna fez com ele se fechasse ainda mais em sua vida. Luiza sempre só, a cuidar da casa e dos seus estudos, desde que retornou após o fim da guerra.

 

             Anna, estava de volta àquela cidade onde viveu a filha abandonada. Sabia que o seu retorno iria reabrir feridas não apenas as suas, mas as da filha que deixara para trás no seu momento de desespero e solidão. Sabia que seria um encontro dolorido, não tinha certeza de que receberia perdão ou mesmo que poderia ser compreendida quando contasse a sua verdade. Anna preferia não se preocupar com esse momento, pois já havia decidido que assumiria os seus erros e que aceitaria qualquer decisão da filha sobre a sua volta.

 

Retornou uma nova mulher, forte e altiva, alegre e bem-humorada, uma mulher que ultrapassou os limites do seu tempo e enfrentou os poderes sociais instituídos ao abominar uma vida fútil e solitária, sem perspectivas e sem futuro. Uma contestadora social, olhada de viés por aquelas pessoas conservadoras. Mas sabia que seria condenada pelo abandono da filha, e sofreria os questionamentos tradicionais: porque não a levou junto? “Ora, jovem, sem recursos, com apenas sonhos na mente, como cuidar de uma criança pequena. Você seria melhor cuidada por seus avós, eu não tinha certeza de que seria capaz de lhe dar seque comida”, contou Anna para a filha Luiza.

 

               Anna retornou para assistir a cerimônia de casamento de Luiza, sim da sua Luiza, a filha que ela nunca esqueceu e que não foi substituída por nenhuma outra criança. Luiza, para Anne, seria única e eterna, mesmo que não tivessem vivido juntas os dias mais felizes de suas vidas, ou nos momentos de angústia, tão comuns em uma família. Anna não perdeu o sentimento da maternidade mesmo longe da filha que pariu, que colocou no mundo. Anna, esperava que a filha pudesse ter uma vida melhor do que a que tivera com o escritor.

 

Nesses 15 anos de distância Anna pensava em como seria o reencontro das duas. Pensava que seria frio, ou alegre? Gostaria que o tempo tivesse apagado da memória da filha a cena da sua partida. Queria que na cabeça de Luiza estivessem registrados apenas os momentos alegres que viveram, as músicas que cantou, as histórias dramatizadas, os beijos de boa noite. Queria mesmo um encontro caloroso, sem dor, abraços apertados e beijos sonhados. Será, depois de tanto tempo?

 

              Antes de chegar à velha casa assombrada de lembranças, ela caminhou lentamente pela rua que um dia foi a sua. Anna, com os seus cabelos mais grisalhos e que não admitia serem retocados por uma dessas tinturas modernas de farmácia, parou no mesmo portão que um dia fechou atrás de si. Por um momento pensou em dar meia volta e pegar o trem que a levaria para a sua casa. As pernas tremiam, o coração batia, as lágrimas desciam, o medo a dominava. Pavor de se ver repelida pela filha que deixara para trás, quando partiu para encontrar a sua própria vida. Decidiu, enfim, abrir o portão e, cambaleando, sentou-se na escada daquela mesma varanda onde havia deixado a pequena Luiza.

 

             Depois de tantas recordações, Anna é acordada por uma voz que parecia vir de longe, mas que ela nunca esquecera. Anna se depara com os mesmos olhos negros que um dia a viu partir. Tomadas de emoção, as duas mulheres permanecem caladas. Aqueles minutos pareciam ter o mesmo tempo da separação, 15 anos. Foi Luiza quem tomou a liberdade de pronunciar as primeiras palavras. “Veio para a cerimônia do meu casamento”, perguntou acreditando que seria uma convidada desconhecida. Sem forças para responder ao que lhe fora perguntado, Anna começou a contar as mesmas histórias de duendes, florestas, rios e fantasmas que Luiza tanto amava e se divertia. Foi essa a maneira especial que encontrou para se identificar para a filha.

 

              Luiza de imediato relembrou da voz e, claro das histórias guardadas na memória. Um reencontro carregado de emoção para as duas. Luiza voltou à sua infância e tentou resistir ao abraço emocionado que sonhara em dar em sua mãe quando ela voltasse. Mas, a energia as atrais e, juntas, sentiram o calor dos seus corpos, misturaram as suas lágrimas, pronunciavam palavras incompreensíveis, como aquelas palavras dos livros que seguiram Anna nos seus anos de solidão. Conversaram pouco naquele primeiro momento de reencontro, e Luiza a colocou a par de como seria a cerimônia do seu casamento, quem era o seu futuro marido, onde iriam morar, os planos de constituir uma família numerosa, o seu vestido de noiva e a festa de comemoração.

 

             Anna e Luiza sabiam que tinham muitas coisas a falar, porém decidiram que teriam tempo suficiente para isso. Luiza, por sua vez, não contou para a mãe que o seu casamento seria a sua liberdade, a fuga daquela casa, daquela família que nunca teve. Luiza iria depois explicar para a mãe que esperava encontrar no futuro marido a atenção e o carinho que lhe foram negados pelo pai. Luiza omitiu de Anna o seu desejo de voar para fora daquela gaiola que não lhe permitia ver o azul do céu, as nuvens dos seus anjinhos de criança, o verde da copa das árvores, as ondas do mar, o barulho do bater das asas dos pássaros.

 

Como no círculo do tempo, as histórias se repetem. Luiza decidiu que o sentimento que passaria a ter pela mãe era o respeito. Anna não esperava uma relação de amor com a filha, porém ficou feliz por ser aceita em sua vida. A roda do tempo saberia colocar as duas no caminho da fraternidade, pelo menos. Luiza a chamaria de mãe até os seus últimos dias de vida, tentando buscar uma identidade maternal, enquanto Anna a encheria de atenções e presentes.

 

                             Na cerimônia de casamento, Luiza não teve a mãe ao seu lado. De longe, tomada por fortes emoções, Anna viu a filha entrar na igreja. Igual ao seu casamento: os convidados eram formados por membros das duas famílias. Luiza sai da igreja, e Anna a vê como um pássaro, toda de branco, sorridente como se estivesse livre para voar. Desejava que a filha tivesse mais sorte que ela nessa vida escolhida. Desejava que a filha soubesse usar as suas asas e que fosse um pássaro viajante, acima de tudo.

 

             Mãe e filha estiveram juntas por muitos anos, solidárias e fraternas. Nunca esqueceram os anos em que viveram separadas, mas continuaram sem falar sobre essa separação até o último suspiro de Anna.

 

Carminha Corrêa Jecko

2008

 

 

Please reload

Posts Recentes

05.03.2019

13.11.2018

Please reload

Procure pelas Tags
Please reload