O dedo no ponteiro do relógio


Há mais de um ano venho me questionando sobre a rapidez com que o tempo está passando. Não procurei explicações técnicas ou científicas, pois penso que não era bem essa questão. Mas sim, de nos apercebermos dessa velocidade temporal, e o impacto que provoca em nossas vidas. Tudo passa, sim, e agora mais rápido ainda porque percebemos.

Ao escrever esse texto, por exemplo, me dou conta de estar há 12 dias em confinamento social, por causa do Covid-19, o vírus da moda que pegou o mundo e os seus habitantes de surpresa (será?) deixando a todos nós estarrecidos pela velocidade com que o vírus está derretendo cidades e conceitos, também preconceitos. Esse tal vírus, que já pode ser visto como uma terceira guerra, provocando medo e, ao mesmo tempo, nos proporcionando coragem para mudar, daqui a pouco, esse mundo para melhor.

Esperamos!

E o tempo vai passando, rápido, verdade. Causando impactos, violência, mortes, dores, sofrimentos, alegrias – nesse momento, menos – angústias, e mentes turbulentas. O tempo – esse monstro, para uns, sagrado para outros - nos mostra que envelhecemos, que avançamos, recuamos, progredimos, ignoramos...vivemos e morremos.

Mas quem estaria com o dedo no ponteiro do relógio da vida? Fazendo com que tudo vire de cabeça para baixo, pois quando pensamos que a descoberta da penicilina e da vacina contra paralisia, vieram para acalmar o relógio, surge um tal vírus que de tão microscópico que é poderíamos pensar que não existe, mas sim, ele vive e sobrevive a despeito da virada dos ponteiros do relógio.

Me perguntei sobre quem estaria com o dedo no ponteiro do relógio em maio de 2019, quando me ofereci um retiro espiritual e mental, num mosteiro na cidade de Lumbini, na longínqua Nepal. No Oriente, onde nem tinha pensado em um dia viver a roda dos ponteiros do tempo, mas que, pela surpresa da vida, lá cheguei, em princípio para ficar um ano, mas os ponteiros do relógio avançaram tão rápido e com ele as novidades da vida, tanto que tive que retornar antes, ficando somete cinco meses.

Mas afinal, o porquê estamos aqui falando do dedo no relógio? Simplesmente, porque estamos envelhecendo e assistindo aos filmes antigos e aos novos em nossas mentes, temendo não ter tempo de executar as tarefas ou ‘desejos’, da vida. Vamos descobrindo coisas ‘legais’ que nunca tínhamos feito por falta de ... tempo. E aí, cai a ficha e as coisas estão bem boas que queríamos que o tempo parasse, em algumas oportunidades, ou que passasse bem devagarzinho para aproveitarmos o ‘máximo’ possível. Mas o Planeta está rodando, girando no eixo dele muito depressa, a gente quer acreditar.

Ah! Esse tempo, cronos cruel, nos deu saúde quando e não tínhamos... tempo. Hoje temos tempo e não temos ...saúde. Nesse tempo que corre às pressas quando vivemos felizes, sorrimos, possuímos boas coisas, achamos que será sempre assim, até que...caímos doente e, infelizmente, deixamos de sorrir. Então, esse tempo, parece perseguição, corre devagar, pensamos, porque estamos tristes, em dor e sofrimento, melhor que o dedo no relógio corra mesmo, para que possamos voltar a sermos felizes de novo.

Passamos uma vida inteira estudando e trabalhando, e planejando aposentar para ‘curtir a vida’. Parece que demora a chegada a essa boa vida de aposentado, até que chega, mas as nossas energias já não são as mesmas, e os recursos financeiros, muitas vezes, são menores e, curtir a vida, precisa de ...tempo para planejar e acumular. Sabe aquela viagem dos sonhos, a casa na praia ou no campo, o carro novo? Leva tempo. Aí quando conseguimos realizar, estamos envelhecendo, ou envelhecidos, tanto que vamos curtir só um pouco, ou nada disso pois já teremos morridos.

Ah, esse dedo no relógio que deveria estar mais lento!

Voltemos ao Nepal, um país que surpreende tanto pelas belezas naturais como pelos seres humanos gentis e atenciosos. Que pelos poucos recursos financeiros, economia pequena, e muito problemas estruturais e sociais, poderia ser um pedaço de mundo triste. O dono do dedo no relógio, parece, não é o tipo que se preocupa muito com isso, pois olhando ao Nepal de hoje poderíamos ter uma ideia do Nepal do passado. Os problemas sociais nem impedem que os seus habitantes sejam felizes, que eles possam sorrir, serem gentis e atenciosos, pois eles não tem medo, e não tem medo porque tem fé, tem fé porque acreditam em algo muito além da falta de uma infraestrutura geográfica...acreditam no Buda, nos Deuses hinduístas, na força maior que move a fé, a compaixão e o amor. Envelhecer, nenhum problema, pois todos iremos, tempo não importa, nem mesmo idade. Ficar doente, preocupa, mas Buda está junto para acalmar e manter a fé é a razão de superar doenças e problemas.

Para o Buda, o tempo é morrer, viver, morrer, renascer e depois encerrar o ciclo do samsara (das sucessivas vidas). Viver na Luz de Amithaba, quem sabe. Claro, precisamos de méritos para sair do ciclo do samsara, ou, nos livrarmos das dores e sofrimentos.

Então, percebo que o dedo que está no relógio, rodando ‘assustadoramente’ é o nosso dedo, nada mais do que isso. Apenas, não nos damos conta disso, pois atarefados estamos com outras questões subjetivas, vazias, com os sentidos voltados para os desejos, correndo para que eles, esses desejos, sejam realizados. E, em algum momento, no apagar das luzes, iremos enxergar o verdadeiro dono do dedo no relógio. Nós mesmos!

Quando vamos cruzar o caminho do morrer, para o viver e morrer de novo, é que percebemos quanto tempo desperdiçamos rodando o ponteiro dos desejos.

Ok, que tal seguir normal, talvez como em segunda ou terceira marcha de um carro, caminhando como andam os elefantes, calma e decididamente, pois sabem que vão chegar ao destino. Acalmando as mentes, de forma que ela não se transforme num monstro que destrói as prateleiras de porcelana. Observando a natureza, dedicando o tempo que for para perceber como é belo o farfalhar das árvores, o canto dos pássaros, as ondas do mar, as nuvens que transitam sem se importar com o relógio; ter certeza de que o céu é mesmo azul, e que o planeta gira no eixo dele normalmente nos dando a oportunidade de ir e vir, e de viver o agora.

Viver o agora, esse momento, ignorando o dedo no relógio.

Maria Jecko

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