Estrada de espinhos e flores colhidas


O Mestre estava passando pela cidade e, ao decidir pelo descanso na praça mais arborizada do local, acabou por reunir um grupo de pessoas que esperavam algumas palavras que lhes pudessem acalentar os corações e acalmar a mentes. Todos ficaram em silêncio por algumas horas, respeitando o desejo do mestre por um repouso e, certos de que o Mestre, vestido em seus hábitos amarelo e bordô, lhes ofereceria as palavras que aguardavam.

- Esperar é uma virtude, pois nos mostra que somos capazes de vivenciar a calma, a paciência e experimentar o silêncio, disse o mestre com a sua fala mansa e generosidade marcada pelo olhar.

- Ainda não chegou a esse mundo um Ser que foi ou será poupado da dor e sofrimento. Lembrem-se que aqui é o local que temos para aprendermos a praticar a humanidade e, o mais importante, exercitar o amor e compaixão. Somos Seres em busca da felicidade, ou, da iluminação como nos ensinou o Muni. Vejam que a felicidade está tão perto de nós, mas tão perto, que nem percebemos – apontou o dedo indicador para a área do coração e depois da mente. E aí saímos viajando procurando um lugar para ‘ser feliz’ – destacando a palavra.

- Não se enganem! A dor e sofrimento nos seguem para onde formos, mesmo depois da morte. A dor e sofrimento se traduzem em várias coisas, situações, sensações e visões. Queima em nossa pele com as coisas de mal que as pessoas podem nos fazer, ou com as dores na carne provocadas pelas doenças. Você chora porque uma floresta está queimando, um amigo morreu, ao ver uma criança faminta, uma violência, uma injustiça, por vítimas de guerra, pelos famintos, pelos doentes nas ruas. Você sofre, por tudo e qualquer coisa. A família está distante? E você pensa que os problemas e dores que te provocavam antes não vão te atingir por causa dos milhares de quilômetros que os separam? A distância vai ainda amplificar a sua dor, pois o problema está aqui na sua mente.

Ele conta, então uma história de uma mulher que um dia lhe perguntou:

- Mestre, veja que passei a minha vida a servir minha família, fui escravizada, rejeitada, preterida, mal tratada, servi até à segunda geração e só recebo desgosto, abandono. Todos tinham direitos a tudo e qualquer coisa, eu apenas ao trabalho da casa, lavar, passar, cozinhar, e ainda ser tratada com indiferença como se não fizesse parte dessa família, quando nasci do mesmo ventre e fruto do mesmo pai. Até roubada em bens materiais fui. E ainda explorada, enganada. A minha vida é uma estrada de espinhos, e estou cansada. Sempre cuidei de minha mãe com amor e carinho, e ela ríspida e nem um carinho por mim. Agora, ela está velha, cuido dela, mas chega, vou embora. Não quero mais sofrer nessa família, e os irmãos que agora, cuidem da mãe; o que eu pude fazer já fiz; agora quero cuidar de mim. Vou embora para outro mundo, desabafou a mulher reclamando novamente que a estrada dela só tem espinhos.

Em silêncio contemplativo, o Mestre conta que ouviu a mulher, observando os seus movimentos, o olhar, a cor da pele, a respiração, o modo de falar.

- Somos todos irmãos nesse mundo, sendo que uns sofrem mais e outros menos. A nossa vida está baseada no carma que trazemos em nossa mente quando renascemos, e no que iremos levar depois que morremos. A família é a nossa primeira grande escola de prática da tolerância e da generosidade; eles são os nossos primeiros mestres que nos ensinam aquilo que viemos aprender. É preciso tirar o obscuro dos olhos e ver que, se preciso for, vamos sofrer injúrias, violência, intolerância, indiferença, e fazer com que a nossa estrada fique tomada por espinhos difícil de caminhar. Porém, essas ‘aulas’ nos servem à nossa prática da generosidade, do amor e da compaixão. Se não formos capazes de aprender com os nossos inimigos, vamos aprender com quem então? Com os amigos? Esses costumam ser generosos e compassivos, observou o Mestre das vestes amarela.

E continuou relatando as palavras ditas à mulher:

- Certamente nessa estrada você está colhendo flores: dos amigos que conquistou e que também te ensinaram; do trabalho que exercitou e foi reconhecida como uma grande profissional; o patrimônio que amealhou com o suor do trabalho; dos recursos materiais que foi acumulando etc. Pare e observe que a sua vida, se por um lado foi de dor e sofrimento no seio familiar, por outro foi de alegrias e conquistas entre os amigos, ou posso dizer, a verdadeira família. Entregue o seu amor a quem mereça, e esteja pronta para receber o amor de quem está te oferecendo. Família e amigos são passageiros nessa viagem de turismo que fazemos aqui na Terra, disse o Mestre.

- Descubra o caminho para cessação desse sofrimento que, certamente, está tão perto de você que a cegueira do rancor não permite que enxergue. Pratique o amor mais e mais para aqueles que esperam o amor verdadeiro. Todas as pessoas estão aqui para aprender e ajudar umas às outras, sem interferir nas decisões de cada um. Não aguarde ódio, rancor, mágoa, nada, de quem te ofendeu e ofereça a eles a Vitória! Perdoe a todos, não somente na palavra, mas demostre que perdoou, mesmo que as pessoas não percebam que você está se curando.

- Não pense que é a única pessoa a sofrer os desgostos familiares, e outros tipos de injustiça. É nessa base que iremos construir o nosso crescimento com Sabedoria, veja bem, Sabedoria, para vivermos na felicidade mesmo sabendo que iremos enfrentar dores e sofrimentos. Permita a você mesma a felicidade, e descanse a mente dessas emoções perturbadoras. Finalizou, lembrando que a nossa estrada por ser de espinhos, mas a colheita são flores.

O ensinamento do Mestre àquela senhora tocou a todos presentes, pois cada uma delas teria um exemplo para relatar de sofrimento com um ente querido de suas famílias.

O Mestre, enfim, ofereceu a todos o ensinamento para o caminho da cessação do sofrimento quando poderão perceber na atenção, na concentração e na prática do amor e compaixão, o caminho para a iluminação.

- Vivam com Sabedoria e não se apeguem demasiadamente nas dores, sofrimentos, nas pessoas e nos bens materiais. Lembrem-se de que, ao partir, ao morrer, poderão deixar sementes plantadas, mas nada levarão dos objetos do apego acumulados nessa vida.

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Lótus - Primavera Ano 2020.

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