Liberando as correntes


Um mestre, que vivia caminhando entre as cidades, levando palavras de amor, observava o olhar das pessoas, com quem cruzava... era de dor. Ele devolvia o olhar... de amor. Por vezes, parava e falava para quem quisesse ouvi-lo. Um dia, o mestre dissertava sobre o perdão, para ele, um instrumento libertador das nossas almas. - Perdoe, dizia, uma, duas, três, quantas vezes for necessário, e perceba a paz interior que brota no coração.


Enquanto falava, um homem se aproximava, se arrastando, maltrapilho, corpo curvado, barba e cabelos longos. E lhe dirige a palavra: - Mestre, saí de casa para trabalhar e, ao retornar, encontrei os meus pais, a minha esposa e meus dois filhos, mortos. Os corpos foram mutilados pelos assassinos que levaram os alimentos que tínhamos no lar. Passei uma noite de tormenta vendo os meus entes amados naquele estado. No dia seguinte enterrei a todos. Em frente à cada uma das sepulturas prometi vingança, e percorri dia e noite as estradas em busca dos mal feitores. Mestre, se passaram 10 anos desde então e ainda os procuro. A tormenta da morte está dentro de mim. Passo dias e dias em desespero, mal me alimento. Não enxergo nada, a não ser aqueles corpos destroçados pelo chão.

Me ajude mestre!


Arrasto essa corrente pesada, sem que consiga ver o brilho do sol, sem ouvir o canto dos pássaros, ou ver as nuvens caminhando, nem sinto os pingos da chuva. O mestre e os caminhantes que escutavam aquela história dramática, ouviram sensibilizados, sentindo em si a dor daquele homem. Muitas foram as lágrimas que rolaram.


Homens e mulheres que se encontravam sentados na terra, nada murmuraram, fecharam-se em si clamando a Deus por aquele Ser tão sofrido. - Homem, falou o mestre, parte da sua dor já está curada, desde o momento em quem pedes ajuda para curar essa ferida. O perdão é o caminho para a salvação, para curar essa chaga de vingança, de ódio, estabelecidos em seu peito. Homem, perdoa os algozes, deixem que eles prestem contas dos atos segundo a Deus. Busque a sua paz, guarda a sua liberdade.


Perdoa quantas vezes for necessário. Plante em seu coração as sementes do amor que recebeste quando chegou a esse mundo. Siga no caminho da natureza, banhe-se no riacho, ouça os pássaros, repouse à sombra de uma árvore. Ouça com ouvidos limpos, abra os olhos e veja que o sol estará lá à sua frente, mesmo que hajam nuvens escuras.


Ao ouvir as palavras do mestre, o homem maltrapilho, rasgou ao meio a camisa em farrapos que vestia jogou por terra. Virou-se para trás e, num gesto simbólico com as mãos de libertação, largou as correntes que o amarravam. - Sinto calor no peito, e me solto agora dessas amarras. Me liberto dessas correntes.

E se foi.

C.C.J.

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